Os insetos vetores podem ser infectados durante o repasto sanguíneo em um ser humano infectado ou em animais infectados, ocorrendo a ingestão de amastigotas que podem estar presentes no sangue, na linfa interstícial, ou mesmo a ingestão de células fagocíticas contendo amastigotas em seu interior. No trato digestivo do inseto, os amastigotas se convertem em promastigotas procíclicos (não são ivasivos para as células), se dividem por fissão binária e migram para a probóscide do inseto (já como promastigotas metacíclicos, ou seja, infectantes) e podem ser transmitidos para os hospedeiros vertebrados através de sua picada, reiniciando o ciclo (Mostrado resumidamente na figura abaixo).

Os promastigotas que não são fagocitados, não conseguem sobreviver no meio extracelular, pois são atacados pelo sistema imunológico do hospedeiro. As moléculas de lipofosfoglicano (LPG) e de glicoproteínas gp63 (que possui ação enzimática como proteases) estão relacionadas com os mecanismos utilizados pelos parasitas para resistir à ação microbicida dos macrófagos, no interior dos mesmos.

Portanto a sobrevivência no interior destas células consiste na estratégia utilizada por protozoários
Leishmania para disseminar a infecção no interior do hospedeiro. A figura à esquerda mostra macrófagos infectados in vitro por
Leishmania donovani : Em A, temos a internalização de dois promastigotas (indicado pela seta) pelo macrófago. Em B, podemos observar as formas amastigotas intracelulares. Em relação aos insetos transmissores do parasita, os flebotomíneos, temos dois gêneros importantes:
Phlebotomus (vetores da leishmaniose na África, Europa e Ásia) e
Lutzomya (vetores da leishmaniose nas Américas), mostrados, respectivamente na próxima figura.
Manifestações Clínicas da Leishmaniose:- Leishmaniose cutânea, cutâneo-mucosa e cutâneo-difusa,: Doença zoonótica que acomete diversas espécies de animais domésticos ou silvestres e o homem. As principais manifestações observadas podem ser classificadas de acordo com seus aspéctos clínicos, patológicos e imunológicos. A Forma cutânea localizada é caracterizada por lesões ulcerosas indolores, únicas ou multiplas; a forma cutâneo-mucosa se caracteriza por lesões agressivas nas regiões nasofaríngeas. As lesões podem se disseminar por disseminação hematogênica ou linfática, assim , as lesões disseminadas se apresentam como múltiplas úlceras cutâneas, podendo resultar na forma difusa, com lesões nodulares não-ulceradas.No Brasil, as principais espécies de
Leishmania relacionadas com estes tipos de manifestações são
L. amazonensis (cutânea e cutâneo-difusa)
, L. brasiliensis (cutânea, cutâneo-mucosa e cutâneo-difusa) e
L. guyanensis(Cutânea e cutâneo-mucosa).
A lesão inicial é manifestada por um infiltrado inflamatório na derme (uma das camadas da pele), contendo principalmente linfócitos e macrófagos, estes últimos estando infestado de parasitas. Essas lesões podem regredir após um período de tempo, podem permanecer estacionárias ou evoluírem para nódulos dérmicos (histiocitomas), localizados no sítio da picada do vetor. No local ocorre uma reação inflamatória e necrose resultando na desintegração de epiderme e da membrana basal, que culmina com a formação de uma lesão úlcero-crostosa. A leishmaniose cutâneo-difusa está associada a uma deficiência na resposta imunológica do paciente. Esta forma da doença caracteriza-se por um curso crônico e progressivo por toda a vida do hospedeiro, não respondendo aos tratamentos convencionais. Na figura seguinte podemos ver em A- Lesões nodulares no pescoço; B- Lesões ulcerosas; C- Lesão do tipo cutâneo-mucosa; D e E- Lesões cutâneo-difusas e F- Cão apresentando lesões características da leishmaniose.

- Leishmaniose Visceral: Também conhecida como Kal-Azar ("doença negra" em sanscrito), esta forma da doença é causada principalmente pelas espécies
L. donovani, L. infantum e
L. chagasi. Consiste na forma mais severa da leishmaniose, sendo crônica, com alta letalidade caso não seja tratada e apresenta aspectos clínicos e epidemiológicos diversos e característicos para cada região onde ocorre. Os fatores de risco para o desenvolvimento da doença incluem desnutrição, uso de drogas imunossupressoras e co-infecção com o vírus HIV. Representa uma doença infecciosa sistêmica, caracterizada por febres irregulares de média intensidade e longa duração, esplenomegalia, hepatomegalia, acompanhada de anemia, leucopenia, trombocitopenia, hipoalbuminemia, hipergamaglobulinemia, além de outros sintomas. O emagrecimento, o edema e a debilidade progressiva contribuem para a caquéxia e o óbito na ausência de tratamento. Há evidências de pessoas que contraem a infecção e não chegam a desenvolver a doença, se recuperando espontaneamente ou mantendo um equilíbrio na relação parasito-hospedeito, de modo que permaneçam assintomáticas. A figura seguinte mostra pacientes acometidos pela forma visceral da leishmaniose.
Epidemiologia,Diagnóstico, Tratamento e ProfilaxiaAs espécies do gênro
Leishmania possuem uma ampla distribuição geográfica e são comumente encontradas em roedores,marsupiais, edentados (tatús e tamanduás), canídeos e primatas. Raramente ocorre a doença nos hospedeiros considerados como reservatórios naturais do parasita. A leishmaniose visceral é considerada endêmica em 62 países, sendo uma doença típica de zonas rurais e a presença do parasita em uma região depende de fatores, tais como a presença do inseto vetor e de hospedeiros vertebrados susceptíveis. Raposas representam o reservatório silvestre dos protozoários e os cães representam o reservatório doméstico, cuja infecção tem sido encontrada em íntima associação com os focos de infecção humana.
As medidas de profilaxia consistem no diagnóstico e tratamento dos doentes; eliminação de cães com sorologia positiva (embora nem sempre seja fácil aplicar este tipo de medida) e combate ao inseto vetor. No Brasil há uma vacina disponível para a leishmaniose canina, cujo nome é Leishmunj. Entre os métodos utilizados para o diagnóstico estão: pesquisa do parasito em aspirados de medula óssea, fígado baço e linfonodo; técnica de reação de polimerase em cadeia (PCR); teste de Montenegro, reação de imunoflorescência indireta (RIFI); reação de fixação de complemento (RFC) e ensaio imunoenzimático (ELISA). No tratamento são utilizadas drogas antimoniais, como o Glucantime (antimoniato de N-metilglucamina) e Pentostan (estibogliconato sódico), por via intravenosa ou intramuscular. Medidas alternativas para o tratamento têm sido pesquisadas devido aos fortes efeitos colaterais dos animoniais. Na tabela abaixo são mostradas as principais drogas utilizadas no tratamento da parasitose.

As ações de controle voltadas para o tratamento humano, identificação e sacrifício de cães soropositivos e controle da população de flebotomíneos, devem ser aplicadas de acordo com as condições locais de transmissão e em conjunto para uma melhor eficácia. Entretanto, devem ser empregadas outras ações de promoção da saúde, acompanhadas de vigilância epidemiológica e da educação da população para a saúde e o bem estar social.
Referências- Neves, D.P.
et al., Parasitologia Humana, Edição 11, Ed. Atheneu
- Henry W Murray, Jonathan D Berman, Clive R Davies, Nancy G Saravia. Seminar: Advances in leishmaniasis, Lancet 2005; 366: 1561–77.
Ver TambémDistribuição Geográfica da Leishmaniose Pelo Mundo:
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Leishmaniasis_world_map_-_DALY_-_WHO2002.svg
[ ]´s